Deus, tempo e criação


Dr. Craig, o senhor parece acreditar que Deus existe fora do tempo, quando não há nenhum universo [Deus (a)], e dentro do tempo, quando existe um universo [Deus (b)]. Minha pergunta: Qual dos dois criou o universo? O Deus (a) não pode criar o universo, pois um ser atemporal não é capaz de “criar” [“criar” é uma ação temporal]. O Deus (b) não pode criar o universo, pois um ser que existe no tempo não é capaz de criar o tempo a partir do qual ele cria.
Blake

Resposta Dr. Craig:
Não sei se você percebeu, Blake, mas acabou de apresentar o argumento de que a fé cristã é incoerente ao afirmar que Deus criou o universo? Afinal, de duas uma, ou Deus é temporal ou é atemporal, e, de acordo com o seu argumento, a criação não faz sentido em nenhum dos casos. Não é preciso dizer mais nada sobre a doutrina da criação!
O problema acerca de Deus, tempo e criação é complexo e venho propor a visão que defendo nos livros God, Time, and Eternity [Deus, tempo e eternidade] (Kluwer, 2001) e Time and Eternity [Tempo e eternidade] (Crossway, 2001) precisamente para resolver esse enigma.
Em primeiro lugar, vamos esclarecer a visão que proponho. Quando você descreve minha posição como a visão de que “Deus existe fora do tempo, quando não há nenhum universo, e dentro do tempo, quando existe um universo”, seu modo de usar a palavra “quando” pode levar a equívocos. Se considerada ao pé da letra, implicaria a existência de tempo antes da criação do universo. Entendo que o tempo começou com o primeiro evento, que considero ser o primeiro ato criador de Deus. Por isso, prefiro enunciar minha visão da seguinte maneira: Deus é atemporal sem o universo e temporal com o universo.
A razão por que sustento que Deus é atemporal sem o universo se deve ao meu entendimento da impossibilidade de uma regressão temporal infinita de eventos, e, conforme a teoria relacional do tempo, na falta de quaisquer eventos, o tempo não existiria. A razão por que sustento que Deus é temporal desde a criação do universo situa Deus numa nova relação, a saber, a de coexistir com o universo, e só essa mudança extrínseca (sem mencionar a ação do poder causal de Deus) é suficiente para existir uma relação temporal.
Além disso, é desnecessário dizer que Deus (a) e Deus (b) não são dois Deuses, mas uma única entidade descrita em dois estados.
Portanto, consideremos primeiro o segundo extremo do seu dilema: “O Deus (b) não pode criar o universo, pois um ser que existe no tempo não é capaz de criar o tempo a partir do qual ele cria” — argumento semelhante em defesa da atemporalidade divina foi apresentado por Brian Leftow, filósofo da Universidade de Oxford, portanto você está em boa companhia! Na minha opinião, porém, essa proposição é falsa (veja God, Time, and Eternity, pp. 19-23). Leftow entende que, se for contingentemente temporal, Deus não pode num dado tempo t criar t porque sua atividade em t pressupõe a existência de t: a existência de t é de forma explicativamente anterior à ação de Deus em t. Eu discordo. Segundo a teoria relacional do tempo, este é logicamente posterior à ocorrência de algum evento. Assim, conforme a teoria relacional, a ação de Deus é explicativamente anterior à existência do tempo. Tudo o que Deus precisa fazer é agir, e o tempo é criado como consequência. Assim, Deus tanto poderia criar t como existir em t.
Considere agora o primeiro extremo do seu dilema: “O Deus (a) não pode criar o universo, pois um ser atemporal não é capaz de ‘criar’ (‘criar’ é uma ação temporal)”. Ao modo dos filósofos medievais, que adoravam a exatidão, precisamos distinguir dois sentidos diferentes desse critério:
1. Não possivelmente (Deus é atemporal & Deus cria o universo)
e
1'.Deus é atemporal & não possivelmente (Deus cria o universo)

A ambiguidade no primeiro extremo do seu dilema é como a ambiguidade da frase “Não é possível à casa branca ser marrom” — queremos dizer que “não é possível à casa branca ser tanto branca como marrom” ou que “não é possível à casa branca tornar-se marrom”? Entendida no primeiro sentido, a frase é verdadeira, mas entendida no segundo sentido, é falsa.
Portanto, pense a respeito de (1). Se você pensa ou não que é possível Deus ser atemporal e criar o universo, dependerá, tenho certeza, de sua teoria do tempo. De acordo com a dita teoria dos fatos temporalmente estáticos, ou teoria-A do tempo, passar a ser temporal é um aspecto real e objetivo do mundo, na proporção em que as coisas vêm a existir ou deixam de existir. Mas segundo a teoria dos fatos temporalmente dinâmicos, ou teoria-B do tempo, todos os eventos e momentos do tempo são igualmente reais, e tornar-se temporal é ilusão da consciência humana. Ora, com relação à teoria-B do tempo, penso que seja fácil perceber como Deus pode criar o universo no sentido de que, a fim de existir, o universo depende contingentemente de Deus. Conforme essa perspectiva, a variedade espaço-tempo quadrimensional existe total e simplesmente como um bloco, e Deus existe “fora” do bloco e sustenta-lhe a existência. Segundo tal visão, criar não é necessariamente uma ação temporal; Deus pode criar atemporalmente. Logo, (1) é falsa.
Por outro lado, se você adotar a teoria-A do tempo, como estou fortemente inclinado a adotá-la, então (1) é verdadeira. Afinal, no primeiro momento de existência, o universo passa literalmente a existir. A relação causal real de Deus com esse evento será nova para ele nesse momento, e, portanto, Deus tem de ser temporal naquele instante. Segundo essa visão, o ato de criar é realmente, como você defende, uma ação temporal e, consequentemente, Deus tem de ser temporal ao criar o universo. Logo, de acordo com a teoria-A do tempo, (1) parece ser verdadeira.
Mas, e quanto a (1') na teoria-A do tempo? Se Deus fosse atemporal, seria capaz de criar o universo? Estaria ele de algum modo aprisionado na atemporalidade, congelado na imobilidade? Não vejo razão para pensar assim. A alegação de que se Deus for atemporal lhe seria impossível criar o universo se baseia na suposição de que a atemporalidade seria uma propriedade, não contingencial, mas essencial de Deus. Todavia, como no caso da cor da casa, não vejo razão para pensar que a atemporalidade, ou a temporalidade, não possa ser uma propriedade contingencial de Deus, dependente da vontade divina. Ao existir atemporalmente sozinho, sem o universo, Deus pode desejar não fazer a criação e assim continuar atemporal; ou pode querer criar o universo e passar a ser temporal ao exercer pela primeira vez seu poder causal. Depende da vontade dele.
Assim, segundo a visão que proponho, Deus existe de modo atemporal sem o universo, com a intenção atemporal de criar um universo com um princípio. Ele exerce seu poder causal e, em consequência disso, o tempo passa a existir juntamente com o primeiro estado do universo, e Deus, por livre e espontânea vontade, entra no tempo. Tudo isso acontece de modo concomitante, ou seja, tudo junto de uma só vez. Admito que é uma conclusão surpreendente, mas faz mais sentido para mim do que as alternativas apresentadas.
William Lane Craig
Originalmente publicada como: “God, Time, and Creation”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/god-time-and-creation. Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Cristiano Camilo Lopes.


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