Molinismo, os não evangelizados e o chauvinismo cultural


Sinto que os argumentos de William Lane Craig, de que Deus providenciou para que aqueles que ele sabe que atenderão ao evangelho vivam em partes do mundo onde estejam mais provavelmente expostos a ele, cheiram a “chauvinismo cultural”. Isso significa que extensas faixas da humanidade estão eliminadas, supostamente porque, ainda que o ouvissem, não creriam. Nessa questão, acho C. S. Lewis mais convincente: o sangue de Cristo pode salvar pessoas que talvez necessariamente não saibam que é pelo sangue de Cristo que são salvas. Por favor, corrija-me se entendi a sua posição erroneamente?
Roger

Resposta Dr Craig:
Roger, mesmo achando que tenha entendido minha posição mais ou menos corretamente, não acho que ela tenha as implicações sugeridas por você. Antes de explicar o porquê, permita-me esclarecer a minha proposição.
O problema básico com o qual contendo é o destino dos não evangelizados, aqueles que nunca ouvem o evangelho. Sugiro que seja possível que Deus, por desejar que todos sejam salvos e venham ao conhecimento da verdade (1Tm 2.4), ordenou o mundo de maneira tão providencial que qualquer um capaz de crer no evangelho, se o ouvisse, nasce em tempo e lugar da história no qual de fato o ouve. Nesse caso, ninguém poderia encarar Deus no dia do Juízo e se queixar que, apesar de não ter atendido à revelação geral de Deus na natureza e na consciência e assim descubra que está condenado, teria atendido ao Evangelho, se apenas tivesse tido a oportunidade.
C. S. Lewis era inclusivista e entendia evidentemente que o problema dos não evangelizados se resolve pela adoção da visão de que as pessoas podem ser salvas com base na morte de Cristo pela resposta apropriada à luz daquilo que elas realmente têm. Você diz que acha Lewis “mais convincente”. Eu acho que você devia ter dito “mais atraente”. A visão de Lewis, adotada por mim no passado, é inadequada por duas razões: (1) Nenhuma leitura honesta de Romanos 1 pode apresentar bases para o otimismo de que muitos dos não evangelizados serão salvos pela reposta deles à revelação geral. Talvez alguns sejam salvos (e minha própria visão permite isso), mas não podemos pintar um quadro cor-de-rosa do destino dos não evangelizados depois da leitura dessa passagem. Sem dúvida, a visão de Lewis é atraente e consoladora, mas difícil de se coadunar com o ensino bíblico. (2) O inclusivismo de Lewis não resolve mesmo a questão. O problema do inclusivismo não é ir longe demais, mas é de fato não ir longe o suficiente. O inclusivismo concede salvação só aos que respondem de modo afirmativo à revelação geral de Deus, no entanto nada diz a respeito dos que a rejeitam e estão, portanto, perdidos, mas que responderiam ao Evangelho e seriam salvos se apenas o tivessem ouvido. A questão dos não evangelizados é um problema contrafactual: e quanto aos que estão condenados, mas teriam sido salvos se somente tivessem nascido num tempo e lugar onde ouviriam o Evangelho? A perdição deles se parece com ter azar, resultado de um acidente histórico e geográfico. Inclusivismo como o de Lewis sequer se refere a esse problema contrafactual e, portanto, não consegue ser uma solução satisfatória para o problema. É por isso que tive de deixá-lo para trás e seguir adiante.
Acho que, na minha visão, ninguém está “eliminado”: todo ser humano recebe graça suficiente para a salvação, até mesmo os não evangelizados. A salvação é acessível universalmente. Mas Deus é bom demais para deixar as pessoas se perderem só por terem nascido na hora e no lugar errado da história. Assim, ele coloca aqueles que responderiam ao evangelho, se o ouvissem, em momentos e lugares da história em que o ouçam. Deus não comete injustiça aos não evangelizados que rejeitaram a luz da revelação geral e estão perdidos, pois sabe que não responderiam ao evangelho de jeito nenhum, mesmo que o ouvissem.
Então, minha visão é culturalmente chauvinista? Antes de tratar do assunto, deixe-me comentar sobre o peso da objeção, a qual não ameaça a possibilidade da minha resposta (que é tudo quanto preciso para resolver o problema) nem a sua verdade. A objeção só acha a minha solução intragável. Não tenho certeza do seu grau de seriedade. Afinal de contas, se acreditarmos que as pessoas humanas são individualizadas pela alma delas, então minha alma poderia ter sido colocada num corpo diferente, para que eu fosse alguém de raça ou etnia diferente, nascido num momento e lugar diferentes na história. De acordo com esse entendimento da personalidade humana, as características físicas têm importância bem menor do que têm de acordo com a visão materialista. Ainda assim, a Bíblia nos diz que no eschaton há pessoas de toda tribo, língua, povo e nação (Ap 5.9), portanto deveríamos indagar se a minha visão impossibilita isso.
A resposta é: de jeito nenhum! Alguém que acha que o cristianismo evangélico é uma religião do homem branco não passa de um ignorante dos fatos demográficos do cristianismo mundial. Sabia que dois terços de todos os evangélicos vivem hoje no Terceiro Mundo, uma vez que as taxas de crescimento do cristianismo estão explodindo na Ásia, na África e na América Latina? Sabia que, em 1987, o número de evangélicos na Ásia ultrapassou o número de evangélicos na América do Norte e que, em 1991, o número de evangélicos na Ásia superou o número de evangélicos de todo o mundo ocidental? Seja como for, o cristianismo é hoje uma religião asiática. Pelo visto, é bem provável que o cristianismo europeu caucasiano tenha sido apenas o meio pelo qual Deus alcançou a maioria da humanidade com o Evangelho. Quando se pensa em toda a história humana, do começo ao seu fim, verifica-se que a minha visão não é, em absoluto, culturalmente chauvinista.
Para saber mais a respeito desse assunto tão importante, dê uma olhada neste mesmo site nos artigos catalogados em “Scholarly Articles:  Christian Particularism” [Artigos acadêmicos: particularismo cristão] ou “Popular Articles: Christianity and Other Faiths” [Artigos populares: cristianismo e outras crenças].
William Lane Craig
Originalmente publicada como: “Molinism, the Unevangelized, and Cultural Chauvinism”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/molinism-the-unevangelized-and-cultural-chauvinism. Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Cristiano Camilo Lopes.

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