Tenho percebido que em muitos de seus debates e artigos o senhor tem depositado muito crédito e fé nas narrativas do Evangelho. Eu particularmente me considero cristão, mas tenho uma grande dúvida. Como podemos saber de fato que essas narrativas do Evangelho são realmente tão confiáveis assim? Com certeza, elas são históricas, mas são ou não verdadeiras? Eu poderia escrever um artigo sobre como Pé Grande, o Coelho da Páscoa e Papai Noel vieram à minha casa e assistiram à televisão comigo. Milhares de anos depois, as pessoas encontrariam por acaso os meus papéis e os considerariam como verdade. Os que descobrirem os antigos papéis de Joe então afirmarão: “Bem, nós o consideramos verdadeiro porque há cerca de 26 mil cópias completas e fragmentos desses documentos que foram encontrados na Europa, Ásia e África. Além disso, há somente 680 cópias da Odisseia de Homero, o que tornam as narrativas de Joe completamente confiáveis.” Com certeza, eles são históricos, mas não são de jeito nenhum verdadeiros. O que torna as narrativas do Evangelho verdadeiras e não falsas? Se eu conseguir a resposta a essa pergunta, posso finalmente acreditar que Deus realmente ressuscitou Jesus dos mortos e saber que eu vou para o céu. Se o senhor ou algum de seus assistentes puderem responder a essa questão, isso me ajudaria muito. Obrigado.
Joe
Resposta Dr. Craig:

Fico feliz com sua pergunta, Joe, porque ela toca numa série de conceitos errôneos amplamente partilhados igualmente por cristãos e não cristãos.
A sua pergunta fundamental é: como sabemos que as narrativas do Evangelho são historicamente confiáveis? Com acerto, você observa que a questão não deve ser respondida, apelando-se para a abundância e a antiguidade dos manuscritos dos Evangelhos. A ideia de que a riqueza e a idade desses manuscritos é evidência a favor da sua credibilidade histórica é um conceito equivocado, alimentado pela apologética cristã popular. É verdade que o Novo Testamento é o livro mais bem atestado da história antiga, tanto em termos de quantidade de manuscritos quanto em relação à proximidade desses manuscritos da data dos originais. O que isso vem provar é que o texto do Novo Testamento que temos hoje é quase exatamente o mesmo texto escrito originalmente. De aproximadamente 138 mil palavras do Novo Testamento, só aproximadamente 1400 permanecem duvidosas. O texto do Novo Testamento está, portanto, cerca de 99% fixado. Isso significa que, hoje, ao se ter à mão um Novo Testamento (grego), pode-se ter a certeza de que se está lendo o texto conforme escrito originalmente. Além disso, esse duvidoso 1% que resta tem a ver com palavras triviais que não têm nada de importância. Essa conclusão é importante porque põe por terra as alegações de muçulmanos, mórmons e outros, segundo os quais o texto do Novo Testamento foi corrompido, de modo que não podemos mais ler o texto original. É algo que inspira reverente admiração pensar que podemos saber com confiança que, quando manuseamos a carta de Paulo à igreja de Roma, por exemplo, lemos exatamente as palavras que ele escreveu cerca de 2000 anos atrás.
Todavia, como você diz, isso não prova que o que dizem esses documentos seja historicamente preciso. Poderíamos ter as fábulas de Esopo fixadas com 99% de exatidão, e isso de nada serviria para mostrar que são histórias verdadeiras. Afinal de contas, a intenção delas era ser fábula, não história. As pessoas do futuro diriam algo parecido das narrativas de Joe, não interessa quantas cópias existissem.
Ora, como você assinala, o alvo dos Evangelhos é ser história. É o que denota seu comentário, ao afirmar que os Evangelhos “são históricos”, ainda que não sejam verdadeiros. Isso significa que os Evangelhos são do gênero histórico-literário, e não do gênero da mitologia, ficção ou fábula. Essa é uma percepção extremamente importante. Uma espécie de consenso tem-se desenvolvido no seio da erudição neotestamentária segundo o qual, em termos de gênero, os Evangelhos se aproximam mais a biografias da antiguidade (“Vidas”, como são chamadas, como nas Vidas dos Nobres Gregos e Romanos, de Plutarco). Conquanto difiram em certos aspectos das biografias modernas, como a falta de preocupação com a cronologia rigorosa, as Vidas da antiguidade estavam interessadas de fato em apresentar de modo verdadeiro a vida daquele que era seu objeto — o que as torna bem diferentes da ficção deliberada, como a que você mesmo imaginou ter escrito. Os autores do Evangelho estavam procurando escrever um relato histórico acerca de pessoas, lugares e eventos reais (basta dar uma olhada em Lucas 3.1-13).
Então, será que eles conseguiram estabelecer objetivamente os fatos a respeito de Jesus de Nazaré? Há duas maneiras de encarar essa questão? Uma seria determinar o valor da credibilidade geral das narrativas do Evangelho. Dê uma olhada em meu artigo neste site em “Popular Articles” [Artigos populares], com o título “The Evidence for Jesus” [As evidência a favor de Jesus], para conhecer as cinco linhas de evidência que dão sustentação à credibilidade geral dos registros do Evangelho sobre a vida de Jesus.
A outra maneira, mais influente na erudição neotestamentária contemporânea, é estabelecer fatos específicos sobre Jesus, sem assumir a fidedignidade geral dos Evangelhos. Aqui, a chave é o chamado “critério de autenticidade” que nos capacita a estabelecer como históricos pronunciamentos ou eventos específicos da vida de Jesus. Os estudiosos envolvidos na busca do Jesus histórico enunciaram um certo número desses critérios para detectar as características historicamente autênticas de Jesus, tais como, a dessemelhança do ensino cristão, a atestação múltipla, os semitismos linguísticos, os sinais do ambiente palestino, a retenção de material embaraçoso, a coerência com outro material autêntico, e assim por diante.
É um tanto ilusório denominar esses termos de “critérios”, pois pretendem formular as condições suficientes, não necessárias, de historicidade. Isso é fácil de ser detectado: vamos supor que um pronunciamento esteja atestado multiplamente e seja dessemelhante, mas não embaraçoso. Caso ser embaraçoso fosse uma condição necessária de autenticidade, então esse pronunciamento devia ser considerado como inautêntico, o que é um mau juízo, uma vez que sua atestação múltipla e dessemelhança são suficientes para garantir a autenticidade. Obviamente, os critérios são revogáveis, em outras palavras, não são guias infalíveis de autenticidade. Seria melhor denominá-los de “indicações de autenticidade” ou de “sinais de credibilidade”.
Na verdade, os critérios de fato equivalem a declarações acerca do efeito de certos tipos de evidências sobre a probabilidade de vários pronunciamentos ou eventos da vida de Jesus. Para um pronunciamento P e uma evidência de certo tipo E, o critério declararia que, mantidas inalteradas todas as outras coisas, a probabilidade de P em razão de E é maior do que a de P em razão apenas do nosso conhecimento do contexto. Assim, por exemplo, mantidas inalteradas todas as demais coisas, a probabilidade de algum evento ou pronunciamento é maior em razão da sua atestação múltipla do que seria sem ela.
Que fatores dentre outros poderiam cumprir o papel de E em aumentar a probabilidade de algum pronunciamento ou evento P? Estes são alguns dos fatores mais importantes:
(1) Congruência histórica: P encaixa-se em conhecidos fatos históricos concernentes ao contexto no qual se afirma que P ocorreu.
(2) Atestação independente e mais antiga: P aparece em múltiplas fontes cronologicamente próximas à época em que P alegadamente ocorreu, as quais não dependem uma da outra nem de uma fonte comum.
(3) Embaraço: P é incômodo ou contraproducente para as pessoas a quem serve de fonte de informação para P.
(4) Dessemelhança: P é uma forma improvável de mentalidade judaica antecedente e/ou uma forma improvável de mentalidade cristã subsequente.
(5) Semitismos: resquícios de formas aramaicas ou hebraicas na narrativa.
(6) Coerência: P é consistente com fatos já estabelecidos a respeito de Jesus.
Veja uma boa discussão desses fatores no texto: “The ‘Criteria’ for Authenticity”, em R. T. France; David Wenham (orgs.). Gospel Perspectives i. Sheffield, Inglaterra: JSOT Press, 1980, p. 225-263.
Observe que esses “critérios” não pressupõem a confiabilidade geral dos Evangelhos. Antes, concentram a atenção num pronunciamento ou evento particular e apresentam evidências para que se considere que esse elemento específico da vida de Jesus seja histórico, a despeito da confiabilidade geral do documento que relata tal declaração ou evento. Esses mesmos “critérios” são assim aplicáveis aos relatos de Jesus encontrados nos evangelhos apócrifos, nos escritos rabínicos ou mesmo em Qumran. Obviamente, se é possível mostrar que os Evangelhos são documentos geralmente confiáveis, tanto melhor! Mas os “critérios” não dependem de nenhuma dessas pressuposições. Servem para auxiliar a localizar as sementes históricas até mesmo no meio da palha histórica. Portanto, não precisamos nos preocupar em defender qualquer alegação atribuída a Jesus nos evangelhos; a questão será se seremos capazes de estabelecer o suficiente sobre Jesus para tornar a fé nele racional.
Estou convencido de que somos capazes. De fato, fico chocado com o quanto da vida de Jesus pode ser estabelecido, inclusive suas reivindicações pessoais radicais, sua crucificação, seu sepultamento em um túmulo, a descoberta do túmulo vazio, seus aparecimentos depois da morte, e o fato de seus discípulos passarem a acreditar de maneira súbita e sincera que Deus o ressuscitou dos mortos. Dê uma olhada no meu livro Reasonable Faith [A veracidade da fé cristã: uma apologética contemporânea. São Paulo: Vida Nova, 2004] (Wheaton, Ill.: Crossways, 1994) para ver os argumentos detalhados. Temos, portanto, sólidas razões para crer em Cristo com base nos fatos históricos preservados a seu respeito nos Evangelhos.
William Lane Craig
Originalmente publicada como: “Establishing the Gospels’ Reliability”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/establishing-the-gospels-reliability. Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Cristiano Camilo Lopes.

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