A premissa causal do argumento cosmológico kalam


Pergunta:
O senhor processa o argumento cosmológico da seguinte maneira:
(1) Tudo que passa a existir deve ter uma causa.
(2) O universo passou a existir.
(3) Logo, o universo tem uma causa.
É a primeira premissa que me deixa confuso. A sustentação dada a (1) parece minar a criação ex nihilo. Ao ser pressionado para defender (1), o senhor diz coisas como “o ser não pode vir do não ser”, “algo não pode vir do nada”, etc. Portanto, (1) é verdadeiro porque (A) não é possível que algo venha de nada. O senhor diz que (A) é evidente e denomina-o de o “primeiro princípio de metafísica”. Qual é o significado de “possibilidade” aqui? Não pode significar possibilidade física, pois é evidente que as leis naturais não se aplicarão à criação do evento. Até onde consigo enxergar, deve significar algo como possibilidade lógica. Mas se é logicamente impossível que algo venha do nada, então não é possível que Deus faça algo a partir do nada, pois Deus não pode violar as leis da lógica, pode?
Parece que aquilo que o senhor realmente quer dizer é algo como (B) não é possível que algo venha a existir a partir do nada — ôps, sem uma causa. Mas em (B), assim como em (A), não existe nada de autoevidência nem de força intuitiva. O que nos intriga não é algo surgir incausado do nada; é simplesmente algo surgir do nada.
Isso fica evidente devido à sua própria perplexidade com relação à doutrina da criação ex nihilo. Quando lhe vejo pressionado nesse ponto, o argumento parece uma abdução. O senhor afirma algo como: “Não sei como Deus poderia ter criado o universo a partir do nada, sei apenas que é duplamente absurdo dizer que isso ocorreu sem uma causa”. Mas não há duplo absurdo, há simplesmente absurdo — e as duas explicações são absurdas. O que se requer é que Deus seja uma explicação melhor do que um evento sem causa (se, de fato, essa for a única outra opção). Não sei exatamente o que forma as condições necessárias e suficientes para uma boa explicação, mas acho que tem algo a ver com a remoção de confusão. Ou seja, uma boa explicação deveria nos deixar menos confusos a respeito dos fenômenos. Mas se for confusa a ponto de ser absurdo que algo passe a existir a partir do nada, é realmente bem menos absurdo do que alguém tomando posição e dizendo: “Haja…”.
Sei não.
Ademais, esse é um tipo radicalmente diferente de causação. Considero que, a despeito da noção de causação envolvida, é preciso que seja algo como uma causação eficiente. Quando observamos uma causação eficiente, observamos uma coisa atuando em outra e produzindo algum resultado. Acho que posso entender o que significa para alguém, por exemplo, atuar num bloco de pedra e fazer surgir uma estátua. Acho que seja uma noção de causação perfeitamente inteligível. Mas qual seria o resultado de alguém exercer alguma ação no nada de maneira a causar um efeito. A causação eficiente como criação ou como “fazer surgir” é uma ação exercida em algo. Assim, seja qual for a causação que aqui se tenha em mente é radicalmente diferente de qualquer coisa que entendamos normalmente pelo termo. E quanto menos compreendo essa noção de causação, muito menos inclinado me acho para considerar que a hipótese de Deus seja a melhor explicação.
William

Resposta Dr. Craig:
Ao abordar sua pergunta complexa, William, permita-me primeiramente rever três razões que tenho apresentado para que se acredite na primeira premissa do argumento cosmológico kalam. Em primeiro lugar, a premissa causal está radicada na intuição metafísica de que algo não pode vir à existência a partir do nada. Sugerir que as coisas poderiam passar a existir incausadas a partir do nada é abandonar a metafísica séria e apelar para a mágica. Em segundo lugar, se as coisas pudessem realmente vir à existência incausadas a partir do nada, então é inexplicável por que qualquer coisa e todas as coisas não passam a existir sem uma causa a partir do nada. Finalmente, a primeira premissa é constantemente confirmada pela nossa vivência, o que dá aos ateus naturalistas científicos as motivações mais fortes para aceitá-la.
A minha primeira razão corresponde à sua.
(A) É impossível que algo passe a existir a partir do nada.
Acho que o princípio ex nihilo nihil fit (do nada, nada procede) é mais certo do que tudo na filosofia, e nenhum indivíduo racional duvida sinceramente dele. Mas esse princípio não contradiz em nenhuma hipótese a doutrina da creatio ex nihilo (criação a partir do nada), assim como entendiam os pensadores medievais que adotavam as duas. Afinal, apenas no caso da criação há uma causa que traz à existência o objeto relevante.
Se a sua pergunta for: “O que significa ‘possibilidade’ aqui?”. A resposta é: “possibilidade metafísica” — uma modalidade que fica entre a possibilidade física e a possibilidade lógica estrita, denominada quase sempre de “possibilidade lógica ampla” pelos filósofos contemporâneos. Para ilustrar, é possível afirmar, do ponto de vista estritamente lógico, que “o primeiro-ministro é um número primo” (não há nenhuma contradição lógica aqui); mas, apesar disso, esse tipo de coisa é metafisicamente impossível (incapaz de atualização). Há todos os tipos de verdades — como “tudo que tem forma tem tamanho”, “nada pode ser totalmente vermelho e totalmente verde”, “nenhum evento precede a si mesmo”, etc. — que não são logicamente necessárias do ponto de vista estrito, mas são, acho eu, metafisicamente necessárias. Penso que a primeira premissa do argumento kalam é uma verdade metafisicamente necessária.
No que se refere ao seu
(B) Não é possível que algo passe a existir do nada sem uma causa,
acho que é logicamente equivalente a (A). Uma implica a outra. Apenas considere: vamos supor que alguém proponha refutar (A) alegando que “algo pode surgir do nada se tiver uma causa!”. O proponente de (A) pensaria acertadamente que a outra pessoa não o teria entendido. Se algo tem uma causa, logo não surge do nada. Surgir implica a falta de todas as condições causais, e ponto final. Pense nisso da seguinte maneira: se algo passa a existir de modo incausado a partir do nada, então, obviamente, ele passa a existir a partir do nada (B→A). E se algo passa a existir a partir do nada, então passa a existir de modo incausado a partir do nada (A→B). Portanto, (A) e (B) são logicamente equivalentes. Logo, tanto (A) como (B) podem ser usados para sustentar a premissa (1).
Ora, com certeza duas declarações logicamente equivalentes podem ter forças intuitivas diferentes. Tiro proveito disso na minha declaração da primeira premissa do argumento moral. Equivale logicamente a dizer: “Se Deus não existe, valores morais objetivos não existem” ou “Se valores morais objetivos existem, logo, Deus existe”, no entanto a primeira declaração é intuitivamente mais óbvia. Assim, da perspectiva dialética, é mais eficaz utilizar a formulação mais intuitiva.
Então, a doutrina da creatio ex nihilo é absurda? Não, porque não contradiz (A). O universo tem uma causa criadora. A causa eficiente é algo que produz seu efeito no ser; a causa material é aquilo de que algo é feito. Michelangelo é a causa eficiente da escultura de Davi, ao passo que o bloco de mármore é a sua causa material.
Se algo passasse a existir surgindo do nada, teriam de lhe faltar todas e quaisquer condições causais, tanto eficientes como materiais. Se Deus cria algo ex nihilo, então lhe falta apenas uma causa material. Isso é reconhecidamente difícil de se imaginar, todavia torna-se algo absurdo, se passar a existir sem uma causa material. Assim, passar a existir sem uma causa material e sem uma causa eficiente é, como eu digo, duplamente absurdo, ou seja, duas vezes mais difícil de se imaginar. Portanto, o não teísta, confrontado com o princípio do universo, não tem a liberdade para afirmar que embora a creatio ex nihilo seja impossível, a origem espontânea ex nihilo o é.
Se me fosse permitido falar por você, parece-me que aquilo que você está realmente questionando é o seguinte: a justificativa que ofereço para sustentar a premissa (1), a saber (A), na verdade sustenta uma premissa mais forte, qual seja:
1'. Tudo que passa a existir deve ter tanto uma causa eficiente como uma causa material.
Então o argumento kalam se pareceria com isto:
1'. Tudo que passa a existir deve ter tanto uma causa eficiente como uma causa material.
2. O universo passou a existir.
3. Logo, o universo tinha uma causa eficiente e uma causa material.
A conclusão (3) não somente é incompatível com a creatio ex nihilo, conforme você mostra, mas, ainda pior, é incoerente. Afinal, o universo está aqui definido como toda a realidade material. A realidade material na sua totalidade não pode ter uma causa material anterior, porque, se tivesse, então não teria passado realmente a existir! Portanto, quem aceita (1') não pode aceitar (2). Ora, é evidente que você aceita (A), uma vez que, conforme alega, as coisas não podem “passar a existir a partir do nada”, e, portanto, você também aceita (1'). Assim, a premissa que você realmente rejeita é (2). Matéria e energia, ou o universo, devem ser eternos.
O alvo do meu desafio é a sua justificativa para a alegação mais forte (1'). Por que pensar que causação eficiente sem causação material é impossível? Já vimos que (A) não justifica realmente (1'). (A) só justifica a obrigação de existir algum tipo de causa da coisa que começa, mas não há razão para se pensar que tem de ser uma causa material. No seu parágrafo final, você apela para a nossa vivência normal de ver causas eficientes atuarem em conjunto com as causas materiais como justificação para (1'). Mas por que pensar que essa concatenação comum deve ser sempre obrigatória?
Talvez fosse proveitoso aqui pensar nos casos em que poderíamos ter causação eficiente sem causação material. Tenho trabalhado arduamente acerca do tópico de objetos abstratos como números, conjuntos, proposições e assim por diante. Muitos filósofos acreditam que esses objetos imateriais existem de forma necessária e imaterial. Mas há muitos objetos abstratos que parecem existir contingentemente e não eternamente, por exemplo, o Equador, o centro de massa do sistema solar, a Quinta Sinfonia de Beethoven, Anna Karienina, de Liev Tolstoi, e assim por diante. Nenhum desses é um objeto físico. O romance de Tolstoi, por exemplo, não é idêntico a nenhum de seus exemplares impressos, pois todos eles poderiam ser destruídos e substituídos por livros novos. Tampouco a Quinta de Beethoven pode ser identificada com nenhuma série particular de marcas a tinta nem de nenhuma apresentação da sinfonia. Ora, todas essas coisas começaram a existir: o Equador, por exemplo, não existia antes que houvesse a Terra. Mas se elas passaram a existir, tiveram uma causa ou apenas passaram a existir tão somente do nada? (Observe que faz sentido fazer essa pergunta, embora essas entidades sejam imateriais e, portanto, não tenham causa material.) Muitos filósofos afirmariam que elas realmente tiveram uma causa: foi Tolstoi, por exemplo, quem criou Anna Karienina. Assim, em casos como esses (e eles são legiões), temos de fato instâncias de causação eficiente sem causação material. Você talvez discorde que esses objetos abstratos realmente existam, mas acho que devemos afirmar que a visão defendida por nossos colegas filósofos é coerente.
Os exemplos de criação literária e musical são sugestivos. Poderia Deus ter pensado analogamente na existência do universo, assim como Tolstoi criou Anna Karienina? Essa é uma ideia provocativa.
Você diz que apelar para Deus como a causa do universo pode não ser a melhor explicação. “Melhor do que o quê?”, pergunto eu. Se a alternativa for passar a existir espontaneamente do nada, acho que ambos concordamos que é impossível. O único recurso para o ateu é negar a premissa (2) do argumento kalam. Mas se temos boa evidência para o começo do universo, como acho que temos, então a alternativa de Deus parece ser sempre a melhor.
William Lane Craig

Originalmente publicada como: “Causal Premise of the Kalam Argument”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/causal-premiss-of-the-kalam-argument. Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Cristiano Camilo Lopes.



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