O que torna a fé racional e quem decide que fé é ou não racional?
Kelli
Resposta Dr Craig:
Kelli, a sua pergunta simples e desconcertante é realmente muito profunda e importantíssima. Se vamos dar o nome de “Fé Racional” a uma organização, melhor seria termos uma ideia bem precisa daquilo que estamos falando!
Permita-me tratar da primeira parte da sua pergunta definindo os termos fundamentais. Com a palavra “razoável” quero dizer racional. Agora, para o crente, o que significa ser racional? Segundo Alvin Plantinga, o mais importante epistemólogo a escrever sobre a matéria hoje, “racional” pode ser entendido em qualquer um de dois sentidos.
Primeiro, pode significar que o crente está no que Plantinga denomina de seus “direitos epistêmicos” de adotar a crença em questão. Aqui, a ideia é que as pessoas têm certas obrigações ou deveres concernentes à sua fé. Estou na minha mesa de trabalho, diante de mim há o que parece ser um computador. Eu não estaria no meu direito de crer que aqui há um cavalo diante de mim. Essa crença seria, portanto, irracional. Por outro lado, o fato de crer que diante de mim existe um computador não fere nenhum dever intelectual e, portanto, é racional para mim. Na verdade, inclino-me a dizer que, para mim, tal crença é racionalmente obrigatória.
Uma maneira alternativa de entender o que, em termos de crença, seria racional é o que Plantinga denomina de “estrutura noética” do indivíduo. A estrutura noética é o sistema de crenças de alguém. Algumas crenças se basearão em outras e, por isso, estarão mais acima na estrutura. Entretanto, no alicerce da estrutura assenta-se um conjunto de crenças básicas, que não são inferidas de outras crenças, mas são, de imediato, consideradas verídicas nas diferentes circunstâncias existenciais da pessoa. A pessoa racional é aquela cuja estrutura noética não apresenta nenhum defeito. O exemplo de um sistema de fé defeituoso seria um no qual alguém acredita em A baseado em B e acredita em B baseado em A, apresentando assim circularidade na sua estrutura de crenças. Pode-se ainda considerar uma crença como básica, mesmo que ela não seja propriamente básica para a pessoa (digamos, acreditar, sem nenhum mínimo fundamento, na Grande Abóbora); ou talvez negar uma crença que deve realmente ser básica para a pessoa (Plantinga entende que a crença em Deus deveria ser propriamente básica para a maioria das pessoas). Quem tem uma estrutura noética defeituosa é irracional no que diz respeito à crença defeituosa. Quem adota uma crença, que não tem nenhum tipo de defeito em si mesma, é racional ao se apegar a tal crença.
No entanto, é importante observar que é muitíssimo modesto afirmar que uma crença é racional ou razoável para ser adotada por alguém. Para que seja racional para alguém, a crença não precisa sequer ser verdadeira, muito menos que prove ser verdadeira, para não falar de se saber com certeza que seja verdadeira. O indivíduo só precisa estar dentro de seus direitos epistêmicos ou não apresentar nenhuma falha na sua estrutura noética ao apegar-se a tal crença. Mas a crença poderia se revelar falsa. Isaque Newton, por exemplo, estava evidentemente dentro de seus direitos ao defender a verdade da física fundada por ele, mesmo que 300 anos depois os físicos tenham descoberto que a física newtoniana precisa ser abandonada quando se tratar de objetos se movendo a velocidades próximas à da luz. Ninguém diria que Newton era irracional, mesmo revelando-se que ele estava equivocado.
Portanto, dizer que o cristianismo é uma fé razoável é uma alegação modestíssima de fato! Afirmar isso não significa dizer que o islã e o ateísmo não sejam também crenças razoáveis. Obviamente, porém, entendo que o cristianismo não só é razoável como também é verdadeiro e que seus concorrentes são falsos. Mas meu procedimento exemplifica o que denomino de princípio de modéstia apologética. Quer dizer, em vez de se fazerem declarações extravagantes a favor da fé cristã que elevem a barreira tão alto que se torna difícil superá-la, é melhor pôr a barreira mais em baixo fazendo reivindicações bem modestas para depois saltar sobre ela com demonstrações bem mais elevadas do que o que foi alegado. Assim, você demonstra humildade cara a cara com o incrédulo e supera as expectativas dele apresentando evidências mais do que suficientes para estabelecer aquilo que você alegou com modéstia.
Então, o que quero dizer com “fé”? De novo, há duas maneiras de entender esse termo. Por um lado, poderia significar o conteúdo da religião (cristã). Nesse sentido, o termo “fé” é empregado para designar as alegações de verdade da cosmovisão cristã. Seria possível, nesse sentido, contrastarmos os princípios da fé cristã com, por exemplo, a fé islâmica. Quando falamos de fé aqui, temos em mente um conjunto de doutrinas. Nesse sentido, dizer que essa fé é razoável é sustentar que essas doutrinas são racionais para serem adotadas por alguém.
Por outro lado, pode-se considerar “fé” como o ato de crer. De acordo com o reformador protestante Martinho Lutero, fé, nesse sentido, tem três componentes. Primeiro, há a notitia, ou o entendimento. Ou seja, é indispensável entender a verdade que está sendo alegada. Segundo, há o assensus, ou o assentimento. Ou seja, é indispensável aceitar intelectualmente que a alegação é, de fato, verdadeira. Não apenas há o entendimento da alegação, mas também o assentimento e a concordância em relação a ela. Finalmente, há a fiducia, ou confiança. A fé salvadora envolve não o mero assentimento intelectual a algumas doutrinas, mas um compromisso de todo coração ou com confiança em Deus, de quem são feitas as alegações. Afirmar que a fé cristã é, nesse sentido, razoável, é o mesmo que dizer que crer no Deus na Bíblia é algo racional que alguém pode fazer. Dar o passo da fé é um passo razoável para alguém inteligente e informado.
Ao contrário de todos os irados e espalhafatosos proponentes do dito “neoateísmo”, estou convencido de que a fé cristã, assim compreendida, é eminentemente razoável.
Dito isso, fico na dúvida se respondi sua pergunta corretamente. Na verdade, talvez você não esteja querendo um esclarecimento sobre o que significa “fé razoável”, mas saber quais são os critérios para determinar se uma crença específica é ou não razoável. Se a pergunta for essa, então sugiro que dê uma olhada em “Faith and Reason” [Fé e razão] no meu livroReasonable Faith [A veracidade da fé cristã]. Para ser razoável, qualquer crença terá de ser logicamente consistente e se adequar aos fatos da experiência, sejam científicos, históricos ou o que forem. Tal consistência sistemática, como tem sido denominada, é uma condição apenas necessária à verdade de uma cosmovisão, mas pode ser também uma condição suficiente para a sua racionalidade. Para determinar a verdade da cosmovisão serão necessários, além disso, argumentos sólidos que não incorram em petição de princípio e fundamentados em premissas mais plausíveis do que a negação desses argumentos; ou será necessário um modo de conhecer tal verdade de maneira adequadamente básica. Tenho afirmado que o cristianismo, em contraste com outras crenças com as quais estou familiarizado, tem as duas coisas.
Assim, quem decide que crença é ou não razoável? Bem, obviamente, é você quem decide! Cada um de nós decide. É como disse Pascal, o jogo já está em andamento; você precisa fazer a sua aposta. Como você escolherá?
Na verdade, estou dizendo que você tem de decidir, mas não estou jamais insinuando que a sua escolha é que determina a verdade. Caso esteja perdida numa caminhada nas montanhas e tiver de escolher que via tomar numa bifurcação da trilha, isso não significaria que a sua escolha determina qual o caminho lhe levará a um lugar seguro. Pelo contrário, a trilha verdadeira já está determinada pelos fatos. Cabe a nós, porém, pesar os fatos e tomar essa grave decisão, quase sempre cheios de profunda ansiedade e incerteza.
Todavia, como cristãos, sabemos que ninguém está verdadeiramente só ao fazer a escolha de crer no evangelho. Afinal, Deus enviou o Espírito Santo para condenar o mundo e resgatar dele um povo para si mesmo. Jesus prometeu: “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, saberá se esse ensino é dele, ou se falo por mim mesmo” (Jo 7.17). No final, será o próprio Deus quem julgará se alguém, nas circunstâncias históricas em que viveu, tomou uma decisão racional.
William Lane Craig
Originalmente publicada como: “What is Reasonable Faith?”. Texto disponível na íntegra em: http://www.reasonablefaith.org/what-is-reasonable-faith. Traduzido por Marcos Vasconcelos. Revisado por Mariú M. M. Lopes.

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